Título original: "Afraid of Communities - Indonesian Tabletop RPG scene & LFG". Escrito originalmente por IsaacIsAfraid no seu blog intitulado "Afraid of Encounters" em 29 de janeiro de 2026.
Com Medo de Comunidades é uma série em que eu falo sobre a cena de RPG de mesa da Indonésia. Tópicos futuros relacionados à cena local ficarão sob esse título.
Se compararmos a cena de RPG de mesa da Indonésia com a idade humana, ela ainda está na infância, aprendendo coisas novas, experimentando e brincando. Ainda não começou a perguntar quem ela é ou quem quer se tornar. Por enquanto, ela brinca, aprende, brinca de novo e aprende mais uma vez. Nossa comunidade é jovem nesse nível.
Eu me tornei parte dessa cena em 2018, depois de jogar com pessoas do mundo inteiro desde 2016. Nunca sequer imaginei que existiria uma cena local. Bem, eu estava errado.
Comparando o estado da cena em janeiro de 2026 com o de 2018, posso dizer que ela já cresceu e que está bem diferente. Mas a maior parte ainda continua a mesma, com D&D 5e sendo o mais popular (e provavelmente sempre será).
Vou compartilhar o que sei sobre a cena de RPG de mesa da Indonésia. Como ela era, como é agora e como será. Também vou falar sobre as tendências, as culturas e as comunidades que fazem parte dessa cena. Assim como a Indonésia e seus povos, acho que somos unidos na diversidade. Bhinneka Tunggal Ika, né não, companheiros indonésios? E com a diversidade vêm os conflitos e as diferenças.
O que compartilho aqui certamente será enviesado pela minha perspectiva. Mas espero que ofereça um vislumbre do que é a cena indonésia.
Pré-D&D 5e e Critical Role (antes de 2017)
Eu não considero esse período como o “início” da cena. É mais como um estágio embrionário, ou uma criança ainda no ventre da mãe. E o que sei vem apenas do que ouvi das pessoas que começaram antes de mim.
Antes de 2014, a cena existia apenas em pequenos grupos. Estudantes universitários e do ensino médio. Pessoas privilegiadas o bastante para ter acesso à internet, viajar para o exterior nas férias ou ter vivido em outro país e sido expostas ao RPG de mesa.
A pessoa mais antiga que conheço que joga RPG de mesa, cujo nome não vou mencionar aqui por questão de privacidade, trouxe AD&D 2e e D&D 3.0e no começo dos anos 2000. Ele ainda joga RPGs de mesa e atualmente está na faixa dos 40 anos. Tentei entrar em contato com ele, mas infelizmente não consegui alcançá-lo para obter mais informações sobre seus primeiros dias como hobbysta de RPG de mesa.
Eu sei que Har também começou no início dos anos 2000, entrando em contato com Nobilis e D&D 3.5e. Ele chegou até mesmo a criar seu próprio sistema para jogar com os amigos da escola, porque ele só conseguiu criar um personagem para Nobilis e ler D&D 3.5e.
Outra pessoa, meu amigo Tom, começou usando uma plataforma MUD (multi user dungeon) uma plataforma que ele encontrou online. Foi assim que descobriu que a plataforma usava uma versão antiga de D&D, embora ele não lembre qual. Pouco depois disso, começou a jogar D&D 4e durante o ensino médio e a faculdade. Uma das jogadoras dele era, na verdade, minha esposa, Cita. Isso foi em meados dos anos 2000, e aquele grupo permaneceu unido até o lançamento de D&D 5e. Informação extra dele: ele havia conhecido alguém, um amigo da família, que tinha jogado D&D quando estudou no exterior. Não se sabe se essa pessoa trouxe D&D para a Indonésia ou não.
Eu sei que fóruns como Forum GameIndo, Forum VideoGamesIndonesia, Forum Megindo HotGame GameQuarters e Forum Lautan Indonesia eram grandes naquela época, e esses fóruns tinham seus próprios subfóruns de roleplay. Alguns eram de ficção e personagens originais, enquanto outros eram baseados em diversas mídias da cultura pop.
Também existe uma postagem de blog de 2008 mencionando a Fantasy 'n Games, um café de boardgames no sul de Jacarta, que vendia produtos de D&D e realizava sessões no local.
(Fantasy 'n Games é uma das primeiras, senão a primeira loja de boardgames que vendia produtos de D&D e realizava sessões de D&D)
O resto é uma história obscura que ainda precisa ser descoberta.
A Onda do Critical Role (2016 - 2022)
Estou chamando os próximos períodos de “ondas”, porque eles estão relacionados a certas mídias ou eventos que influenciaram os indonésios a jogar RPGs de mesa. Esta é a Onda de Critical Role. E, até certo ponto, a Onda de Stranger Things.
Para deixar claro, eu não fiz parte dessa onda. Sou um ponto fora da curva que começou nesse hobby porque meu PC explodiu em 2015 e eu precisei encontrar um novo passatempo. Comecei em janeiro de 2016 (10 anos!), e talvez isso possa virar tema de outra postagem.
Conteúdos no YouTube e transmissões ao vivo cresceram bastante nesse período, o que causou uma onda de novos jogadores RPG de mesa na Indonésia. Eles foram fortemente influenciados pela campanha Vox Machina de Critical Role, que ainda estava em andamento no início desse período. A primeira temporada de Stranger Things também foi lançada em 2016.
Muitos desses jogadores ainda não tinham conseguido jogar RPG de mesa naquele momento, porque era difícil encontrar grupos. Mas grupos de Facebook começaram a aparecer. E então, servidores de Discord cresceram em 2017. A primeira grande comunidade indonésia de RPG de mesa, D&D Indonesia, foi formada em 2017. Em seguida veio D&D Jakarta. Outras variantes locais também apareceram, sendo a mais notável D&D Yogyakarta.
Depois de dois anos jogando no Roll20, fazendo amizade com pessoas de vários países que conheci online (um salve para meus amigos Manek, Pato, Paul e Karrot, da Índia, México, Canadá e Filipinas/Coreia!), eu acabei entrando nas comunidades locais do Discord. Ficava claro pelos nomes que essas comunidades eram focadas em D&D 5e. Outros jogos não eram muito bem-vindos. Eles chamavam as pessoas que jogavam outros sistemas de “hereges”, um termo que ainda é usado até hoje. Meus amigos e eu podemos confirmar que essa palavra era usada para nós porque jogávamos Call of Cthulhu em um desses servidores.
Também existiam comunidades menores, como a Rigor Mortis, que eram mais receptivas a jogos diferentes. Os moderadores também criaram uma comunidade/evento derivado chamado DEX (Dungeon Explorers), que se tornou a primeira convenção/evento indonésio de RPG de mesa sem relação com boardgames ou card games. Antes disso, RPG de mesa era apenas uma parte menor de eventos como o Jakarta Tabletop Day, que eram mais focados em boardgames e jogos de cartas.
Lojas e cafés de boardgames também tiveram um papel enorme. Arcanum é provavelmente o maior em Jacarta. Outro que eu costumava frequentar era o Castle 8, em Depok, onde alguns dos meus amigos geralmente jogam. Essas lojas e cafés acabam se tornando suas próprias comunidades, normalmente separadas das comunidades maiores e de comportamento mais “tribal”.
Essa era atingiu seu auge no início da COVID, quando todos estavam em casa. Os servidores de Discord ficaram mais populosos. Novos jogadores e novos mestres. Mais campanhas. O que também resultou em mais pessoas começando a se aventurar como designers de RPG de mesa. Algumas delas, como eu, entraram no RPG Writer Workshop (agora Storytelling Collective), criando nossos primeiros módulos de aventura. Outros fizeram seus próprios sistemas, como Kutuk, um RPG de horror indonésio lançado em 2022.
A maioria dos jogadores que começou no hobby durante essa onda foi fortemente influenciada pelo estilo narrativo e de interpretação intensa característico do Critical Role. Acho que isso é comum até fora da Indonésia. E sim, houve muito do chamado “efeito Matt Mercer” nessa época. Mas, pela minha experiência, aqueles que vieram dessa onda parecem ser mais abertos a experimentar jogos diferentes. Imagino que, por serem alguns dos primeiros jogadores de RPG de mesa da Indonésia, eles já bateram sua cota de D&D 5e. Alguns deles foram justamente os que migraram para outros jogos, ou abandonaram D&D completamente, após a controvérsia da OGL em janeiro de 2023.
A Onda Radit (2023 - 2025)
Esse foi um período curto, e provavelmente ainda está em andamento. Mas é o maior boom de popularidade do RPG de mesa aqui na Indonésia. A Onda Radit começou porque Raditya Dika, comediante de stand-up/ator/figura pública indonésia, fez vídeos dele e seus amigos jogando D&D 5e. Também houve uma onda menor, mas igualmente significativa, nesse período: a Onda Baldur’s Gate 3.
Raditya Dika então fez um vídeo com uma das maiores comunidades indonésias do Discord, e o número de membros disparou assim que colocaram o link do servidor na descrição do vídeo. Milhares entraram querendo descobrir do que se tratava esse tal de D&D.
O resultado? Muitíssimos jogadores. Pouquíssimos Dungeon Masters. Muitos desistiram depois de descobrir que os livros de regras eram em inglês, que precisavam ler e aprender regras/mecânicas, ou que precisavam de uma conexão estável com a internet para jogar. Outros permaneceram, criaram seus próprios grupos e comunidades menores, ou migraram para outros grandes servidores. Aqueles que ficaram às vezes tinham dificuldade com o fato de D&D ter muitas regras. Então encontraram uma alternativa em Ten Candles. Pois é, aquele jogo de horror com rolagens de d6 que usa velas virou uma alternativa rules light para D&D. As pessoas jogavam online usando PNGs de velas. Elas adaptaram o jogo para vários gêneros além do horror, de maneira semelhante a como a cena japonesa modificou Call of Cthulhu.
(Alguns dos primeiros vídeos de D&D de Raditya Dika)
Nessa época, eu já não estava muito envolvido com a cena local desde 2021. Então o que escrevi acima vem de relatos de outras pessoas.
Assim como Critical Role influenciou o estilo de jogo das pessoas da Onda Critical Role, o estilo de Raditya Dika influenciou os jogadores que começaram nesse período. As sessões pareciam ser mais focadas em comédia e entretenimento. Enquanto aqueles que vieram por causa de Baldur’s Gate 3 eram mais focados em combate, builds e combos.
Outro efeito da Onda Radit foi o aumento dos actual plays indonésios. Outras figuras públicas, atores e influenciadores começaram seus próprios projetos. Infelizmente, esses grandes actual plays são conhecidos por usar IA generativa em suas produções, alguns até promovendo isso dentro da comunidade. Streamers, como vtubers, também passaram a transmitir sessões de RPG de mesa.
Também surgiram mais mestres pagos, porque cada vez mais pessoas queriam jogar D&D. Um dos exemplos mais notáveis é a TPK (The Pandemonium Kollektive), uma comunidade iniciada por mestres pagos para oferecer serviços a jogadores que querem jogar presencialmente. Enquanto isso, outros mestres pagos possuem suas próprias bases em lojas/cafés de boardgames e servidores de Discord.
E mais criadores locais também! Um dos criadores locais mais prolíficos é Desyanto, da OnMeja Games, que começou com boardgames e depois migrou para RPGs de mesa, focando em publicações na Indonésia. Ele começou com uma aventura para DURF e publicou jogos como Quack Healer e Wanaloka.
Ah, já que estamos falando de algo que não é D&D (finalmente), outras comunidades que não estavam focadas em D&D começaram a aparecer. Uma delas é a ID:TRPG, que começou como um podcast dos moderadores e depois virou sua própria comunidade. Eu era ativo lá, organizando uma sessão regular de compartilhamento chamada BroSis (NgoBrolin Sistem, ou “Conversando sobre Sistemas”). Cheguei até a chamar Zedeck Siew como convidado para falar sobre Mythic Bastionland, algo que ele documentou em uma postagem no Bluesky. Infelizmente, o BroSis não está ativo desde agosto de 2025. O que levou meus amigos e eu a criarmos...
LFG
A criação da LFG começou quando eu, minha esposa Cita e meu amigo Kevin, do Distracted at the Table, conhecemos Shao Han, um criador de RPG de mesa de Singapura. Nós conversamos bastante sobre a cena de Singapura e sobre a importância de comunidades locais. Isso claramente despertou algo no Kevin naquele momento, já que eu ainda estava focado no BroSis na ID:TRPG.
Depois que a BroSis acabou, nós três nos encontramos com nossa amiga Beeb, da in lower case, em setembro. Todos concordávamos que queríamos criar alguma coisa, um evento, uma convenção, movida pela comunidade.
Então, em 1º de novembro de 2025, realizamos o LFGcon SESSION 0 no café de um amigo. Quatro jogos (Daggerheart, Dread, Mothership, Mythic Bastionland). 18 participantes, incluindo os mestres. Queríamos que o LFGcon SESSION 0 fosse um teste, para ter certeza de que havia interesse na cena por um evento que não fosse focado apenas em D&D, mas também em outros RPGs de mesa.
Nossos números cresceram a partir daí. Começamos a preparar o LFGcon SESSION 1 logo em seguida. Abrimos as inscrições em dezembro, e elas esgotaram em uma hora. Então, em 24 de janeiro de 2026, realizamos o LFGcon SESSION 1 no restaurante de um hotel no centro de Jacarta. Seis jogos (Call of Cthulhu 7e, Daggerheart, Dungeons & Dragons 5e, DURF, Mothership 1e, Nobilis 2e). Mais de 40 participantes.
O lema da LFG/LFGcon é “Encontre jogos novos. Encontre o seu grupo.” Ele vem das nossas esperanças e sonhos de que mais indonésios possam jogar RPGs de mesa diferentes e encontrar pessoas com quem jogar. Também queremos ter algo que outros países têm: convenções e eventos. Vivendo em um país de terceiro mundo, provavelmente é difícil participar de algo como a Gen Con. Então por que não criar a nossa própria?
(Os participantes da LFGcon SESSION 1)
O servidor de Discord atualmente tem 108 membros. Alguns deles são designers já estabelecidos e outros estão começando agora. Até blogueiros existem agora! (Eu já mencionei Kevin e Beeb, então um salve para Har, do Diceless)
Tenho certeza de que esse número vai aumentar sempre que anunciarmos as inscrições abertas para nossa próxima convenção, que atualmente pretendemos realizar trimestralmente. Então a próxima deve acontecer entre abril e junho. Por enquanto, os moderadores estão preparando atividades menores. Coisas como Clube do livro, Ngabuburit (esperar o horário do iftar durante o Ramadã, mas jogando RPGs de mesa), e outras atividades menores, tanto no Discord quanto presencialmente. Vamos ver.
O Futuro
Quando eu ainda era ativo em uma dessas grandes comunidades de D&D no Discord, alguém disse algo na linha de: “Comunidade é inútil. No fim das contas, só a sua mesa importa.” Eu acreditei nisso por um tempo, depois de ver o quão voláteis e vulneráveis essas comunidades são. Elas foram uma das razões pelas quais eu não fiz parte de nenhuma comunidade durante a maior parte da pandemia.
Mas minha mentalidade e perspectiva mudaram, especialmente depois de participar de várias comunidades OSR/NSR/P-OSR. Passei a perceber que, para existir uma cena saudável e em crescimento, comunidades são necessárias.
Ler postagens como A Nova New School Revolution, de Yochai Gal, Eu organizei uma mini-con, de Dungeon Bison, Como criamos uma comunidade de jogos, de Clayton Notestine/Explorers Design, e Um Guia Rápido e Sujo para Construir uma Cena Local de Design de RPG, de Lyme/Brackish Draught, além de assistir ao vídeo intitulado Comunidade, de Matt Colville, realmente me ajudou a abraçar comunidades novamente.
Pessoalmente, não tenho grandes ambições de fazer com que a LFG esteja na linha de frente da cena. Eu apenas espero e desejo que a LFG possa ser um caldeirão de diferentes culturas, estilos, personalidades e jogos, onde possamos compartilhar nosso amor por esse hobby.
O que desejo ver é mais pessoas da cena experimentando jogos diferentes. Ver mais designers de RPG de mesa surgindo da cena local.
Depois de passar por 2025 e começar 2026, estou esperançoso quanto ao futuro da cena indonésia de RPG de mesa.
